Desde que assumiu o comando do São Paulo, em 2020, Julio Casares quebrou um jejum de nove anos do time e conquistou três títulos, renegociou dívidas, participou da alteração do estatuto do clube, se reelegeu, mudou o nome do estádio do Morumbi para Morumbis, bateu recordes de bilheteria, assinou contrato com a Live Nation e quase morreu de Covid.

Nesta semana, ele recebeu a coluna para uma entrevista. Relembrou dos tempos em que frequentava o estádio com seu pai, Olean Casares, levando sanduíches de mortadela feitos pela mãe, Maria, na mochila. “Era uma epopeia chegar ao Morumbi.”

Falou sobre o desafio de alterar o nome e o tombamento do estádio sem que ele perca as raízes. Revelou que está namorando e revelou também o seu salário —que equivale a menos da metade do de um jogador iniciante.

Detalhou o desafio de equilibrar competitividade e finanças (“não sobra dinheiro”) e conversou sobre a cobrança dos torcedores por dois títulos neste ano: o da Libertadores da América e o do Brasileirão.

“Faltam estes”, disse.

“Eu tenho quase três anos ainda [de mandato]. Mas não prometo. O que eu prometo é que nós vamos seguir lutando com convicção.”

Afirmou ainda que viveu sua primeira paixão aos sete anos —e que ela jamais teve um fim.

O COMEÇO

Eu morava em uma rua de terra no [bairro] Parada XV de Novembro, na zona leste, pra lá de Itaquera.

Era uma aventura, uma epopeia chegar ao Morumbi. Meu pai [Olean] punha a criançada nos carros antigos que ele tinha, Ford, Chevrolet, minha mãe [Maria] fazia sanduíche de mortadela, e a gente partia carregando as bandeiras. Era um programa maravilhoso.

Com 14 anos, eu trabalhava como office-boy no centro da cidade, no grupo Pedro Ometto, hoje Cosan.

Eu fazia o serviço a pé para economizar os passes [de transporte coletivo] e pegar ônibus no fim de semana para ir no jogo.

A gente tinha que chegar muito cedo [para garantir um bom lugar no estádio]. Sentávamos no cimentão [as arquibancadas não tinham cadeiras], naquele sol forte. Era uma festa.

O futebol hoje está mais gourmetizado.

FUTEBOL GOURMET
Você tem o desafio de ser um gestor racional, e de ser também o torcedor-raiz.

Ao mesmo tempo em que pensamos na receita e na modernidade, nós resgatamos valores.

O São Paulo é hoje o clube mais popular do Brasil, o que tem a melhor média de público no estado. O setor popular, com 14 mil lugares, é o ingresso mais barato do Brasil.

Um líder da torcida me disse: ‘Pô, te acusavam de golpe. Agora a torcida quer dar um golpe para que você continue’

MORUMBIS
É difícil a marca de uma empresa de celular, de carro, vingar no lugar do nome Morumbi.

Pensamos em Morumbic [da caneta BIC], Morumbig [do supermercado Big], tudo para negociar o nome sem perder a nossa essência. E fizemos a proposta para a Mondelez [que fabrica o chocolate BIS].

Não posso falar de valores, mas nossa negociação do naming rights, por três anos, foi a maior já realizada, proporcionalmente [a imprensa fala em R$ 25 milhões].

E a resposta foi tão grande que eu até vou sentar com os empresários daqui a um ano e dizer: “Vamos prorrogar esse contrato, em outras bases?” Até o metrô anuncia a estação [na região do estádio] como “Morumbis”.

TORCIDA ANTIGA
Eu sou do tempo em que a entrada dos jogadores em campo era um acontecimento. Entrava o primeiro time, a torcida dele fazia uma festa, papel picado, fogos. Entrava o outro, a torcida adversária comemorava. E ali a gente já media [quem estava mais forte]. Entrava o juiz, e todo mundo vaiava.

Hoje os dois times entram com o hino oficial da federação, da CBF, como na Europa. Mas o Brasil tem particularidades.

Eu espero que o futebol de São Paulo volte a conviver com torcidas contrárias, como ocorre em outros estados.

Poderíamos propor um piloto, algo como as delegações chegarem juntas no mesmo ônibus nos estádios. É importante dar o exemplo.

TORCIDA NOVA
Um dia a Leila [Pereira, presidente do Palmeiras] me ligou perguntando se eles poderiam jogar no Morumbi, porque haveria show no Allianz Parque [estádio do Verdão]. Eu falei: “Claro que sim”. Eles já jogaram aqui duas vezes, e nós, uma vez lá [no Allianz]. Muita gente dizia que era um perigo [as torcidas depredarem o estádio adversário]. Confesso que dormi preocupado, “pode acontecer uma desgraça”. Mas acreditamos. E deu certo.

BEBIDA EM ESTÁDIOS DE SP
Em São Paulo não pode bandeirão nos estádios, não pode cerveja, não pode torcedor [de outro time]. Por mais que tenha aspectos de segurança, cabe uma maior discussão.

O cara bebe fora do estádio —cerveja, destilado, bebida às vezes sem procedência— e entra pouco antes de o jogo começar, já turbinado. É um contrassenso, uma hipocrisia.

CAIXA ELETRÔNICO
Nosso endividamento está próximo dos R$ 600 milhões, algo parecido com um ano de faturamento do clube. É administrável.

A dívida de curtíssimo prazo é de R$ 250 milhões.

Se tudo der certo, a partir de abril vamos reestruturar e alongar a dívida, captar recursos em melhores condições e tentar um deságio [com antigos credores].

E há várias situações. Todo mês, por exemplo, eu pago R$ 450 mil para o Daniel Alves, que hoje enfrenta problemas na Justiça na Espanha.

Na saída dele, fizemos uma confissão de dívida e um acordo que baixou a dívida para R$ 25 milhões. Estamos pagando.

AJUSTE FISCAL
É preciso um equilíbrio. Se você decidir zerar a dívida, ou reduzi-la bastante, vai tomar decisões que vão diminuir a tua competitividade.

O futebol é muito caro. Se não tem receita, você não monta um time competitivo. Vai correr risco de rebaixamento —e de perda de uma receita de TV que é de mais de R$ 100 milhões por ano.

Além disso, a felicidade do torcedor é ser campeão.

Você tem que ter um bom time sem fazer loucura.

Lembra do equilibrista do circo? Você tem 12 pratinhos, vai girando, vai cair aqui, equilibra. Não sobra dinheiro.

Mas o core business é o futebol. Nada do que fizemos valeria tanto se a bola não entrasse no gol.

Quando assumi, liquidamos quatro processos, voltamos a ter crédito. Investimos.

Você tem o desafio de ser um gestor racional, e de ser também o torcedor-raiz

Fomos campeões paulistas em 2021, chegamos a duas finais em 2022, no ano passado veio a grande conquista [Copa do Brasil]. E começamos 2024 com outra grande conquista [Supercopa].

A Copa do Brasil nos trouxe ainda um prêmio [pago pela CBF] de R$ 80 milhões. A bilheteria aumenta, o torcedor chega ao estádio cinco horas antes do jogo, consome, compra camisa. É uma coisa de louco.

Valoriza os jogadores. E quando vendemos o Beraldo, por um valor extraordinário [R$ 107 milhões estimados], equalizamos as contas naquele momento.

É um círculo virtuoso.

DESPESA DA VITÓRIA
Jogador da base ganha R$ 15 mil por mês. Quando sobe para o profissional, já vai para R$ 40 mil, R$ 50 mil. Se performar bem, salta para R$ 80 mil. Quando é campeão, vai para R$ 280 mil ao renovar contrato.
Então, quando somos campeões, a despesa aumenta. Mas as receitas sobem.

NOVAS CONTRATAÇÕES
Não há nada previsto. O Lucas voltou neste ano. Muitos duvidavam. O [Jonathan] Calleri, o Rafinha, o Arboleda, todos foram grandes contratações. Porque renovação de contrato é grande contratação. Mas eu alerto: às vezes, aparece [história de negociação com] jogador no qual nós nem estamos pensando.

DI MARIA NO TRICOLOR
É, o Di Maria apareceu. Quem não gostaria de ter um jogador como ele? Mas não existe nada. Agora, o futebol é dinâmico. Um dia é diferente do outro.

DORIVAL & CARPINI
Ah, eu tive [vontade de xingar o presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, quando ele telefonou para comunicar que estava convidando o técnico Dorival Júnior, do São Paulo, para comandar a seleção]. Ele [Ednaldo] tinha acabado de voltar ao poder por meio de uma liminar do Supremo Tribunal Federal [STF].

Duas horas depois, ele me liga. E começa uma conversa meio besta: “Olha, o Dorival é importante para o futebol brasileiro”.

Eu falei: “Ô, presidente, tá com pressa? Esquece a gente”.

Mas era o sonho do Dorival. E ele foi.

Então veio o nome do [Thiago] Carpini [para assumir a vaga de Dorival], um cara estudioso, comprometido. E aí entra a coragem de você apostar em um técnico novo, né? Temos que apoiar pois virão fases difíceis.

PRIORIDADES DE 2024
O torcedor quer ganhar tudo. Até par ou ímpar.

Não é fácil, né? Você tem um calendário que pode chegar a 70, 72 jogos por ano. É desumano. Precisa ter um elenco de 35 jogadores porque um machuca, o outro rompe ligamento, tem distensão muscular.

Deus nos deu a possibilidade de trazer a Copa do Brasil, um título que faltava para o São Paulo, e a Supercopa na minha gestão. Estão faltando o Brasileirão e a Libertadores.

Eu tenho quase três anos ainda [de mandato]. Mas eu não prometo. O que eu prometo é que nós vamos seguir lutando com convicção.

DE OLHO NO GOL
Eu gosto de assistir o jogo ao lado do pessoal do futebol, com o Muricy. Eu adoro receber autoridade [nos camarotes em dia de jogo], mas eu sou da bola.

No dia de jogo, eu não vivo como um cara normal. Eu entro num transe.

Começo a pensar exclusivamente no jogo. Será que alguém vai se machucar? Como é que está o público? E o jogo? E o técnico?

Quando acaba a partida, o dirigente não comemora. Ele fica aliviado. “Passou a quarta”. Só que aí vem o domingo.

Minha grama vai ser sempre natural. O Morumbi é um solo sacrossanto que recebe muito sol

REELEIÇÃO E PODER
Fui acusado de [liderar um] movimento golpista. Mas, primeiro, 92% dos clubes têm reeleição. O mandato de três anos [do presidente do São Paulo] é um dos menores do Brasil. Se a oposição tem um nome forte, apresenta e disputa.

Na apuração da escola de samba [Dragões da Real], um líder da torcida me disse: “Pô, te acusavam de golpe. Agora a torcida quer dar um golpe para que você continue” [risos].

O estatuto prevê uma reeleição só. Se eu voltar [para um terceiro mandato], vai ser depois que o meu sucessor exercer o dele. Vamos aguardar os acontecimentos.

CANDIDATO
Eu fui procurado já por várias vertentes para uma missão política.

Aqui faço uma coisa pela qual tenho amor. Eu não sei se na política eu vou ter tanta felicidade. Mas pode acontecer, sim, um dia. Eu não descarto.

NAMORADA SÃO-PAULINA
É verdade, nunca namorei alguém que não fosse são-paulina [risos]. Foi coincidência porque nunca perguntei antes para quem elas torciam [ele hoje namora a atriz Mara Carvalho, como revelou a coluna no sábado (17)].

PRESIDENTE
Eu ganho um salário, um pró-labore, que não chega à metade do que os meninos da base ganham quando são promovidos. Recebo em torno de R$ 26 mil, líquidos.

Mas não reclamo. Eu me preparei para isso. Eu ganhei muito dinheiro na televisão, eu vivo dos aluguéis dos imóveis que comprei. Eu me viro.

COVID
Eu viajava com o elenco, a gente fazia teste para detectar a Covid todos os dias, eu fiz mais de 120 testes.

Na volta de uma viagem à Argentina, senti meu corpo doendo. Fui para o Hospital Albert Einstein, precisei de oxigênio e já fiquei internado.

Dias depois, entraram uns quatro médicos [no quarto], todos paramentados, parecendo astronautas, e um deles me disse: “Vamos ter que te intubar”.

Meu mundo caiu. “Sério, doutor?”.

Eu só pensei em ligar para o meu filho e dizer: “O papai vai intubar, mas vai ficar tudo bem. Fica firme aí”. Foram duas semanas na UTI.

Quando você volta [da sedação], está sem força, não consegue escrever, não consegue falar. O enfermeiro te limpa, literalmente, te faz a barba, você não é nada.

Quando sai, revê alguns valores. Entende que precisa levar a vida com mais leveza.

E aquilo também me aguçou a fazer mais para o São Paulo.

LIVE NATION
Um estádio não vive só do futebol. Nós trouxemos vida ao Morumbi. São 6.500 pessoas que vêm aqui diariamente, em restaurantes, academia de ginástica, bufê infantil.

No esquema de shows, quem faz são Live Nation, Time for Fun. O São Paulo tinha deixado de conversar com eles. E o Allianz Parque pegou todo esse mercado.

Decidimos voltar ao roteiro.

E o que eu posso oferecer? Preço. Porque o Allianz tem que pagar o investimento que fez [em obras]. Eu não preciso mais. Se eles cobram R$ 1,5 milhão, eu posso cobrar R$ 1,2 milhão.

Agora, vamos fazer shows aqui em datas que não comprometam o futebol. A minha grama vai ser sempre natural. O Morumbi é um solo sacrossanto que recebe muito sol.

REFORMA
Vamos fazer um grande projeto e trazer fundos de investimentos que serão nossos sócios por um tempo.

Eles vão recuperar os recursos na arrecadação dos eventos, na venda de alimentação e bebidas, nos jogos de futebol, na venda dos camarotes, das lojas, do naming rights. Eles vão ganhar dinheiro, e nós também. Mas ninguém vai mandar aqui. O dono será sempre o São Paulo, que vai ter autonomia e mando.

Na hora em que o desenho ficar pronto, nós vamos fazer um “road show” para apresentá-lo aos grandes fundos.

Detesto dar prazo, porque dependo de terceiros.

Mas o São Paulo vai fazer cem anos em 2030, e eu espero que até lá a gente consiga oferecer essa plataforma para a cidade.

Em São Paulo não pode bandeirão nos estádios, não pode cerveja, não pode torcedor [de outro time]. Por mais que tenha aspectos de segurança, cabe uma maior discussão

TOMBAMENTO DO MORUMBI
Eu já falei aos arquitetos que eu não quero que mude o conceito do estádio. Quero que ele continue raiz.
Eu só quero que, no térreo, o torcedor fique mais próximo do campo. Você vai ter mais camarotes, mais áreas de restaurantes, sem mudar a essência do estádio.

Eu quero manter o estádio com sol, então a cobertura parcial na qual estamos pensando para um anfiteatro não pode comprometer o todo. E ela tem que me possibilitar fazer uma luta de UFC, um jogo de tênis ou um espetáculo musical para 20 mil pessoas. E, num grande show, o estádio vai abrigar de 90 mil a 100 mil pessoas.

PIOR MOMENTO
Foi quando perdemos para o Água Santa. Aquilo foi muito doído.

A grande felicidade foi a Copa do Brasil. Foi o enredo perfeito: nós ganhamos do Palmeiras, do Corinthians e do Flamengo.

Aquilo nos restabeleceu. Colocou o São Paulo de novo em cena. Me lembrei do meu pai, do meu filho comigo, dos meus amigos. Eu chorei, eu sorri. Eu fui para a arquibancada, no lugar onde assistia aos jogos com o meu pai. E pensei: “Eu vinha aqui com ele. E hoje sou presidente disso tudo”.

Se a minha vida terminasse hoje, eu estaria realizado.

O futebol é o primeiro amor da vida da gente. Minha paixão pelo São Paulo começou aos sete anos. É um sentimento que jamais acabará, como diz o hino da nossa torcida.

Fonte: Folha de São Paulo

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