O técnico Dorival Júnior fez um longo desabafo após conquistar o título da Copa do Brasil pelo São Paulo, neste domingo. Dorival falou sobre a mágoa de ser demitido do Flamengo e a forma que provou no Tricolor o seu trabalho.

– Com relação ao Flamengo foi um fim de ano diferente, porque além das alegrias pelas conquistas, só eu e minha família e amigos, entenderam toda a situação e tudo o que havia acontecido. Natural que fiquei chateado com tudo, mas não levei para o campo pessoal, jamais misturei as coisas, comecei a transferir responsabilidades. Sempre soube separar muito bem uma situação da outra, não tinha um espírito de uma revanche em nenhum sentido – afirmou o treinador.

– Joguei contra meus ex-comandados, só fico um pouco chateado porque ganhamos aquelas competições e dizíamos que era um arroz e feijão, e que o arroz feijão e qualquer um faria igual pelo elenco do Flamengo. Um mês depois, por incrível que pareça, quando a mesma equipe não alcançava os resultados da disputa do Mundial, era uma equipe que precisava de reforços, uma equipe que tinha sido campeã da Copa do Brasil e Libertadores. Estranhei as atitudes, colocações de muitos que diziam que 30 dias antes era o melhor elenco da América e que ganharia. Foi muito estranho tudo o que aconteceu. Tentando uma desqualificação do trabalho desenvolvido – acrescentou.

Dorival Júnior chegou ao São Paulo em abril deste ano após a demissão de Rogério Ceni e conseguiu levar o Tricolor à taça inédita da Copa do Brasil em menos de seis meses.

– Hoje eu comprovo com todo o grupo do São Paulo, todo o elenco. Para atingir o topo no futebol tem que ter comprometimento e acima de tudo dignidade para poder encontrar grandes resultados. Poucos sabem o que foi feito no São Paulo do trabalho, de poder resgatar um grupo que estava muito magoado naquele instante, mas que entendeu o recado e passou a acreditar naquilo que foi proposto e com a ajuda substancial da torcida que voltou a ser apaixonada. Conseguimos o momento que talvez seja inigualável nos últimos anos de história desse clube. Isso não tem preço, só tenho agradecer sobre aqueles que confiaram no meu trabalho – comentou.

– Queria dar ao torcedor uma resposta daquele momento que passamos. Com todas as dúvidas e incertezas, inclusive com opiniões que ouvi, que havia dado um passo errado na minha carreira, prometi a todos que não sairíamos do São Paulo, que não fecharíamos o ano sem uma competição. Estou satisfeito com o que estou vendo, um grupo que não contava com Lucas e James, mesmo grupo questionado, mesmo grupo humilhado após o Paulistão e meses depois deu uma resposta tirando dois dos maiores adversários e o campeão da América. Isso daí para mim não tem preço. O amor do torcedor foi resgatado e jamais vou esquecer. O são-paulino tem uma participação decisiva no que fizemos. Eles têm uma parcela muito grande – disse.

O título da Copa do Brasil teve um sabor especial para Dorival. Após a passagem de 2017, o técnico sempre afirmou que gostaria de encerrar o trabalho que havia deixado em aberto naquele ano.

Após levantar a taça, ele se emocionou na saída do gramado e confirmou que conquistar o torneio pelo São Paulo foi diferente.

– Se falar que é de coração, foi diferente porque era um título que o São Paulo não tinha, seria importante. Eu vi uma disputa em 2000, estava assistindo pela televisão, e vi o São Paulo perder o título em seis ou sete minutos, tomando uma virada do Cruzeiro no Mineirão. Não fazia ideia que não tinha uma Copa do Brasil, depois chegando novamente no clube e vendo todas as conversas… Aquilo foi marcante para mim da forma como aconteceu, estava iniciando como auxiliar naquela época. Quando falei que seria muito importante para o São Paulo, depois de 23 anos, voltar a uma disputa de final, principalmente com o trabalho desenvolvido e fundamental para esse momento.

– Acho que isso daí pode iniciar um novo momento na história, na vida desse clube. Por isso era marcante. Não tinha nada a ver em relação ao Flamengo, clube que tenho respeito e consideração. Tenho muito carinho por cada um deles. O sentimento foi de tentar chegar a um título com o torcedor vivenciando, acho que pode ser um divisor de águas. A pressão dos últimos 30, 40 dias não foi fácil. Isso passamos juntos e fez com que a gente crescesse. Essa foi a emoção, eu te garanto – finalizou.

Veja mais trechos da entrevista de Dorival

Retomada da confiança
– No primeiro dia com o elenco, olhei na cara de cada um e falei para se preparem, porque chegaríamos a uma final, falei com toda certeza, acreditava e confiava no trabalho. Tinha noção do que era o elenco do São Paulo. Não estávamos jogando aquela frase aleatoriamente, porque a reação deles me fez acreditar que poderíamos atingir algo maior. Interessante que tudo o que foi proposto, eles aceitavam, se agarravam, entendiam e buscavam correções. Encontramos padrão de jogo que nos fez tirar jogos importantíssimos, nos fez eliminarmos adversários difíceis, chegando com merecimento. Tinha convicção grande que chegaríamos. Ele foi à minha casa para acertarmos o contrato e a convicção com que falei que não gostaria que nenhum saísse, se não pudéssemos fazer nenhuma contratação. Ele nos deu ainda Lucas e James como um acréscimo ao nosso grupo.

Deixar o nome da história
– A alegria que sinto hoje é imensurável de poder deixar um cantinho de uma história belíssima, uma página preenchida com nosso nome. Fico feliz com que tudo tenha acontecido. Queria fazer uma colocação, pedi para ele participar da entrevista, porque às vezes as pessoas não entendem o que está sendo desenvolvido, por isso falei há três meses que o São Paulo ia se preparar para grandes resultados. Poderíamos ter um mês, um ano. Falei isso em 2018 ao Flamengo quando saí, em 2019 ganharam tudo pelo trabalho que está sendo desenvolvido. Tudo o que o presidente tem feito, estar dentro do clube todos os dias, participando ativamente de tudo o que vem acontecendo, entendendo todas as solicitações que fizemos. Chegamos a ter propostas para os jogadores, seguraram elas, pois o objetivo era poder dar um título ao torcedor são-paulino. Agradeço publicamente o senhor ter entendido, aceito mesmo com todas as dificuldades. Não tem preço o que está acontecendo com nosso clube, com a certeza que as conquistas estarão abertas. Muitos e outras acontecerão pela dignidade e pelo trabalho, o são-paulino pode ter certeza que está muito bem representado. Não tenho receio afirmar que o São Paulo caminha a passos largos para voltar a ser a equipe que sempre foi.

Importância das quedas do passado
– Tudo o que o São Paulo viveu teve ponto importante para não repetir o que havia acontecido. Foi no nosso limite. Foi uma sintonia da comissão, jogadores e diretoria para não dar um passo além do necessário. Nos preparamos muito, inclusive sentia a equipe até um tanto quanto carregada hoje. Eles ainda trouxeram um pouco dessa obrigação para campo, e isso poderia ter sido ruim. Estabilizamos o jogo demorando um pouco. Isso talvez se tivéssemos dado uma brecha maior poderia ser maior, tudo o que aconteceu. Seria um momento fundamental. A entrega foi impressionante. Depois vendo a explanação que afirmavam que o Flamengo seria feliz naquele dia, e conseguimos fazer um jogo de alto nível.

Permanência de Lucas
– Se quisermos ver um São Paulo ainda mais forte, nós precisamos de jogadores deste nível. Ele sabe a importância que tem. Temos que ter jogadores deste nível no nosso grupo, e o Lucas é fundamental. Não tenho dúvida que se ele se sentir bem, como tem acontecido, dificilmente ele sairá. Ele sabe o respeito que adquiriu com o torcedor dentro do nosso grupo. Para mim ele é fundamental para que possamos almejar coisas maiores.

Reconstrução financeira
– Se o São Paulo quiser alcançar recursos vai ser por conquistas e campeonatos, vai vender mais cara a camisa, vai trazer ao invés de 20, vai trazer 50, 60 mil todos os jogos. Temos que ter um grande time para que isso aconteça. Não podemos ficar à mercê de vendas a todo momento. Natural que tenha que vender, pode ser que aconteça, mas teremos tempo para uma reposição. Uma venda às vezes alcança um valor considerável, mas a reposição é mais cara do que a venda. Às vezes vai buscar dois, três para cobrir o espaço de um. Tudo isso tem que ser bem pensado e avaliado para saber se é o movimento adequado. O trabalho da diretoria foi fundamental nesse sentido. Chegamos fortalecidos, todos fazendo a mesma linguagem para termos o confronto contra melhor elenco sul-americano. Tivemos que abrir mão do Brasileirão, agora precisamos correr atrás do Brasileirão. Tudo isso tem um preço. Olha a alegria do torcedor, acho que a resposta está dada.

Recuperação da confiança de Nestor e demais jogadores
– Projeção é essa. Tem vários jogadores observados, o trabalho não para. Com relação a Nestor, mas Alisson não vivia grande momento, Caio também, vários contestados, o que é normal naquele instante. Não se diminui o brilho do grupo, os valores de uma equipe. Isso vinha acontecendo com frequência em relação ao São Paulo. Esses jogadores foram fundamentais e decisivos. O principal é que tivemos um elenco que sustentou a recuperação desses garotos. De que maneira? Treinando com uma dedicação maior, participando de muitos momentos. Todo esse contexto fez com que todo mundo crescesse. É raro ver um cara descontente. Não vejo em nenhum treinamento jogadores com cabeça baixa, mesmo não relacionados. Eles estão se dedicando para poder estar presente.

– Eu quero citar um exemplo fundamental: Luciano. Ele foi importante em toda a temporada, decisivo e entendeu toda a situação, o contexto dos dois jogos últimos. Ele foi decisivo para nossa equipe e nas duas partidas ficou no banco, ficou na frente das reuniões, tomou a frente nos treinamentos e sei a vontade que ele tinha de estar em campo para ser decisivo. É de uma satisfação grande, dirigir um grupo com 40 jogadores, eles se mantém motivados e buscando espaço. Isso para quem comanda é difícil de acontecer, até porque tivemos oito resultados negativos no Brasileirão, e em nenhum momento senti esse grupo desmoronando e diminuindo o ritmo. É prazeroso estar no comando de um grupo como esse.

Desconfiança externa
– Não é que não acreditasse, a colocação é que ninguém acreditava no elenco do São Paulo. Eu via porque assistia programas, eu percebia e não entendia porque o São Paulo tinha conseguido envolver o Flamengo, e ninguém reconhecia isso. Tinha qualidades no grupo. Muitos saíram daqui como Patrick, Reinaldo, alguns outros que saíram. Eu sempre acreditei muito porque percebia qualidade nos garotos e que naquele instante perderam o caminho que poderia elevá-los a uma condição. Por isso acreditei demais no trabalho e segundo no potencial que a equipe time, isso nos levou a essa recuperação.

– Temos que pensar com calma, tentar digerir o que está acontecendo. Agora é focar totalmente no Brasileirão. Para terem a ideia, se passássemos na Sul-Americana, estaríamos disputando vaga para a final. Não dá. Quem vai chegando nas fases finais é penalizado, porque as competições acumulam. Temos que ter calma e tranquilidade, tentar finalizar o Brasileirão do melhor nível possível para nesse intervalo pensar no ano seguinte. Para responder que se o São Paulo se manter na prateleira, temos que pensar em jogadores do nível do Lucas, porque sempre tivemos esse nível de jogadores aqui dentro. Saídas serão pontuais e contratações necessárias em determinadas situações.

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